Divulgamos
os textos dos vencedores do 30.º Concurso Literário João de Barros, subordinado
ao tema “(Com)Viver”, uma iniciativa que continua a incentivar a criatividade,
o gosto pela escrita e a partilha de talento entre os nossos alunos.
Agradecemos a todos os que participaram nesta edição, contribuindo com
trabalhos de grande qualidade, sensibilidade e imaginação em torno de um tema
tão atual e significativo.
Os
vencedores desta edição são:
· Categoria A — Francisco Mendes
Estrócio, n.º 10, turma 5.º 1
· Categoria B — Davi Fideli Bueno, n.º
3, turma 9.º C
Parabéns aos
vencedores e um agradecimento especial a todos os participantes pela
criatividade, empenho e qualidade dos trabalhos apresentados.
(COM)VIVER
A professora escreveu no
quadro:
Tema da semana, (com)viver.
Eu achei que ela se tinha enganado, porque
parecia que a palavra estava partida ao meio. Levantei o dedo.
— Professora, o “com” ficou colado por engano?
Ela sorriu daquele jeito de quem sabe uma coisa
que nós ainda não sabemos.
— Não, Francisco. O “com” é a parte mais
importante.
Eu fiquei a pensar nisso o resto da manhã. Porque
viver eu sei o que é. Acordar cedo, reclamar dos cereais sem chocolate, correr
para não chegar atrasado, trocar cromos, fazer TPC… viver é só ir fazendo
coisas até chegar à hora de dormir.
Mas viver com… isso já não tinha tanta certeza.
No mesmo dia, quando cheguei a casa, a minha mãe
disse:
— O Afonso vem morar connosco uns tempos.
O Afonso é o meu primo. Tem 12 anos, fala pouco e
anda sempre de auscultadores. A casa já não é grande, e o meu quarto passou a
ser “nosso quarto”.
No início não gostei.
Ele dobrava a roupa de maneira estranha, não ria
das minhas piadas e ocupava metade da secretária com cadernos cheios de
desenhos de robôs assustadores. À noite respirava alto e parecia um aspirador.
Era impossível viver assim.
No segundo dia discuti com ele por causa da luz.
Eu gosto de adormecer com a porta aberta.
Ele gosta de tudo fechado.
Eu gosto de silêncio.
Ele gosta de um barulho baixinho do telemóvel.
Eu gosto do meu espaço.
Ele também.
Ficámos cada um virado para a parede como dois
países zangados.
Na escola contei ao Martim.
— Normal, disse ele. O meu irmão respira.
— Toda a gente respira.
— Não assim.
Percebi que talvez viver com alguém fosse
aprender a suportar pequenas coisas irritantes… tipo respirações, portas, luzes
e existências.
Mas depois aconteceu uma coisa.
Nessa noite acordei com um barulho.
O Afonso estava sentado na cama, no escuro. Sem
auscultadores. Sem telemóvel. Só quieto.
— Não consegues dormir? perguntei.
Ele encolheu os ombros.
— Na minha casa… também não conseguia.
Fiquei sem saber o que dizer. Então fiz uma coisa
simples: sentei-me ao lado dele. Não fiz perguntas difíceis. Não dei conselhos
inteligentes. Só fiquei.
Passado um bocado ele perguntou:
— Posso deixar a porta meio aberta?
Eu respondi:
— E eu deixo uma luz pequena.
Foi a primeira vez que o quarto não parecia
dividido.
Nos dias seguintes começaram a acontecer acordos
invisíveis.
Eu passei a arrumar metade da secretária.
Ele passou a rir-se das minhas piadas (às vezes).
Eu deixei de reclamar da respiração.
Ele desenhou um robô com uma camisola do Porto para mim.
Descobrimos que os dois odiamos sopa de feijão.
Que os dois temos medo de trovoada.
E que partilhar bolachas sabe melhor do que comê-las às escondidas.
Uma tarde a professora perguntou:
— Alguém já percebeu o que significa (com)viver?
Eu levantei o dedo.
— Não é só viver perto. É viver deixando o outro
caber.
A turma ficou calada. A professora não.
— Explica melhor.
Pensei um pouco.
— É quando o quarto continua a ser meu, mas
também passa a ser nosso. Quando mudamos pequenas coisas para ninguém ficar
sozinho.
Ela escreveu no quadro: “Ninguém vive sozinho
quando alguém fica.”
Agora já sei.
Viver é ter uma vida.
(com)viver é partilhar essa vida sem perder quem somos.
Não é não discutir.
É voltar a falar.
Não é ser igual.
É caber diferente.
À noite, antes de dormir, às vezes ainda ouvimos
a chuva.
A porta fica meio aberta.
A luz fica meio acesa.
E o silêncio deixou de ser grande demais para
dois.
1.º Prémio, Categoria
A — Francisco Mendes Estrócio, n.º 10, turma 5.º 1
Numa habitual escola portuguesa,
numa turma na qual se acabara de ter Cidadania, dois amigos, o Carlos e o Luís,
instigados pelo tema da aula recém terminada, iniciariam, entre os dois, um
debate sobre o “conviver” das pessoas.
Luís, que sempre pensara no
assunto, inicia a conversa:
— Já te apercebeste de como o Homem não nasceu para viver só?
— Engraçado… por acaso já pensei sobre isso. Mas acho justamente o contrário.
Há tanta guerra no mundo, se calhar as pessoas estariam melhor a viver
sozinhas. — responde Carlos.— Oh! Não sei onde andas com a cabeça. Desde o
começo, desde que o Homem é Homem, só pudemos prosperar graças ao mutualismo e
à socialização. É-nos natural buscar conforto nos nossos iguais. — manifesta-se
Luís, fervoroso.
— As coisas boas não têm o direito de anular as más. Até podemos ser sociáveis,
mas algo mais característico nosso é a ganância e a intolerância humana.
Culturas diferentes sempre se enfrentaram umas às outras, por recursos e
influência. No fim, é tudo igual: um vence, o outro perde. E o vencedor conta a
história como bem entende.
Luís, perplexo com uma realidade
antes desconhecida aos seus olhos, continua a debater com Carlos:— Carlos,
abriste-me os horizontes. Tal nunca antes me tinha passado pela cabeça. —
suspira e continua — A única coisa que me vem à mente é como devemos ser gratos
por essas injustiças não acontecerem mais.— Seria bom se assim fosse. Porém,
mesmo com fronteiras delimitadas, a ganância do Homem ainda encontra forma de
justificar o massacre de outros homens, mulheres e crianças— Simplesmente
desumano. — diz cordialmente Luís, quase com afeição.
Carlos continua, com um sorriso
de leve desdém:— Na verdade, isso é, definitivamente, humano. — termina a
frase, mas logo inicia outra — E há mais. É da nossa natureza valorizar a
cultura na qual estamos inseridos e sermos um tanto apáticos quando o assunto
são outras visões culturais. Porém, tal não passa de ignorância. Ainda há quem
se diga “defensor das diversidades”, mesmo não tendo nada de diverso.
O debate estende-se para além da
escola. Os amigos vivem próximos um do outro e costumam ir juntos para casa.
Caminhando juntos, absorvendo e esclarecendo a opinião de cada um, durante o
percurso até às suas respetivas moradas, um velho senhor, que por ali passava,
não pôde deixar de notar o assunto sobre o qual os dois discutiam e decide
abordá-los.
— Boa tarde, rapazes! Posso
juntar-me a vós? — diz o senhor— Por favor! Sinta-se à vontade. — exclamam os
dois rapazes, quase em simultâneo. Não
pude deixar de notar a vossa conversa. E, já que não se importam, recuso-me a
deixá-los ir sem antes vos explicar parte da complexidade da mente humana.
Acontece que aquele senhor fora,
há muitos anos, um psicólogo, cujo maior interesse era a complexidade da mente
humana.
— Os meninos sabiam que, se uma
pessoa se isola da sociedade, terá tendência a desenvolver aspetos mentais mais
depressivos? Essa pessoa poderá sentir-se mais cansada e triste. Com certeza,
não nascemos para ser solitários.
Mal o senhor acaba de falar, os
jovens olham-se. Luís abre um sorriso debochado quando olha para Carlos, como
quem diz: “Eu é que estava certo”.No entanto, o psicólogo dá continuidade:
— De facto, o maior responsável
pela desgraça do ser humano é ele próprio. Guerreamos contra nós mesmos, e isso
é deveras triste.
Desta vez, é Carlos quem sorri
para Luís, mas agora como retaliação à brincadeira do amigo.
— Para viver em sociedade, é
preciso ter curiosidade e coragem. Curiosidade, para que o conhecimento seja
procurado, para que a ignorância seja combatida. E coragem, para seguir em
frente nas sórdidas e tenebrosas cidades dos ignorantes. Caso contrário, não se
vive, mas sobrevive-se. A ignorância não é apenas uma ferramenta destrutiva
para o ignorante; ela é uma bolha que o protege da podridão do mundo. O
problema é que “você” e os “outros”, dentro dessas bolhas, estão presos à sua
própria e destrutiva natureza, que pode aparentar protegê-lo, mas que é, na
verdade, o veneno que polui o ar.
Luís e Carlos, perante o senhor,
tinham feições apaixonadas pelas palavras carregadas de sentimento e
conhecimento, de quem dedicara grande parte da vida ao estudo da mente. Prossegue
o senhor:
— A quem queira combater a
ignorância, deixo esta mensagem: Ponha-se no lugar do outro, experimente o
outro lado da balança, a outra face da moeda. Conheça novas culturas, novas
formas de ver a vida. Leia livros de diferentes autores, das mais variadas
partes do mundo. Aprenda novos idiomas. Ou qualquer outra coisa que não o deixe
totalmente confortável. Pois, com o conforto, vem também a arrogância de achar
que não é preciso melhorar mais.
O velho homem já não tinha mais
nada a dizer, contudo foi confrontado pelos olhares juvenis dos dois rapazes,
que exalavam curiosidade sobre o assunto da convivência. E, portanto,
continuou:
— Existe uma visão um tanto
filosófica de ver o mundo, na qual se faz referência aos habitantes de
ambientes com climas opostos. Os vikings nórdicos e os israelitas da época de
Cristo. Ambos eram povos teístas, que tinham visões opostas sobre como era o clima
infernal. Os dois povos consideravam o inferno um lugar péssimo, de sofrimento
eterno. Porém, para os vikings, o inferno, Hel, era um local frio, onde nenhuma
chama sequer poderia sonhar em ser acesa. Já o povo israelita tinha a ideia de
que o inferno era um lugar escaldante, tal como o fogo.
O ensinamento que podemos retirar
desta comparação é que o “inferno” é permanecer, para sempre, no mesmo ambiente
e situação em que vivemos hoje.
Os nórdicos viviam no frio
extremo, e o seu respetivo inferno tinha caráter gélido. Os israelitas viviam
no deserto, e o seu desagradável pós-vida seria, e é, um local tórrido.
Já na fase final, o sábio homem
prepara-se para dar, de forma resumida, a mensagem que desenvolvera aos dois
jovens:
— Para que se possa viver em sociedade
e conviver com as pessoas à nossa volta, é, definitivamente, necessário
enfrentar os demónios que vivem no inferno de cada um. E agora, como podemos
fazê-lo?
— Expandindo os nossos horizontes
e respeitando os outros? — diz Carlos, com dúvida— Não nos permitindo ficar
confortáveis com as injustiças e combatendo-as? — refere Luís, apreensivo. —
Não poderiam estar mais certos! — exclama o senhor, com uma feição calma, que
irradiava alegria.
— Eu agradeço aos meninos por
permitirem que um velho como eu, sem muito mais tempo de sobra, pudesse falar
sobre um assunto do qual é apaixonado. — articula o senhor.
— Obrigado nós! — diz Luís. — Foi um prazer conhecer o senhor — menciona Carlos.
— Igualmente, jovem. É melhor os dois seguirem caminho. Já está a escurecer.
Os rapazes então, com certa
dificuldade, distanciam-se do velho homem, viram na primeira curva. Seguem
direções diferentes e, finalmente, os seus caminhos se separam, mas não antes
de concordarem em manter viva a sabedoria e o semblante misterioso do velho
homem.
1.º Prémio, Categoria B
— Davi Fideli Bueno, n.º 3, turma 9.º C
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